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remanescente de quilomícron

Bioquímica/Metabolismo lipídicoSistema cardiovascularSistema digestórioSistema endócrino-metabólico

Resumo

Os remanescentes de quilomícrons são partículas ricas em ésteres de colesterol e pobres em triglicerídeos, formadas após a ação da lipoproteína lipase (LPL) sobre os quilomícrons nativos nos capilares. Mantêm a apoB-48 e adquirem apoE, que permite sua captação hepática via receptor LRP1 e receptor de LDL. O acúmulo desses remanescentes, como ocorre na disbetalipoproteinemia familiar (homozigose apoE2/E2), está associado à aterosclerose precoce.

Detalhes

## Formação e metabolismo (via exógena)

1. **Enterócitos** empacotam triglicerídeos (TG), colesterol e vitaminas lipossolúveis da dieta em quilomícrons nascentes, contendo **apoB-48** (gerada por edição do RNAm da apoB pela enzima APOBEC-1, criando um códon de parada prematuro). São secretados na linfa (quilíferos) e alcançam a circulação pelo ducto torácico. 2. Na circulação, os quilomícrons nascentes recebem **apoC-II** e **apoE** das HDL. A apoC-II ativa a **lipoproteína lipase (LPL)** endotelial, que hidrolisa os TG, liberando ácidos graxos livres para tecido adiposo e muscular. 3. Com a perda de TG, a partícula diminui de tamanho e torna-se um **remanescente de quilomícron**: relativamente enriquecido em ésteres de colesterol, pobre em TG, mantendo apoB-48 e apoE, mas perdendo a maior parte da apoC-II. 4. O **fígado** capta os remanescentes por endocitose mediada por receptor: a apoE liga-se ao **LRP1** e ao receptor de LDL, com auxílio de proteoglicanos de heparam sulfato. O colesterol e os TG remanescentes são utilizados para síntese de VLDL e ácidos biliares.

## Pontos-chave para provas

- **ApoB-48** é o marcador de partículas de origem intestinal; não possui o domínio de ligação ao receptor de LDL presente na apoB-100, portanto a captação dos remanescentes depende da **apoE**, não da apoB. - Os quilomícrons são as lipoproteínas **maiores e menos densas**; causam a camada cremosa sobrenadante no plasma refrigerado e aparecem no período pós-prandial. - Os **remanescentes são mais aterogênicos** que os quilomícrons íntegros: são pequenos o suficiente para penetrar na íntima arterial, onde são captados por macrófagos, formando células espumosas.

## Correlações clínicas

- **Disbetalipoproteinemia familiar (hiperlipoproteinemia tipo III):** - Causa: homozigose **apoE2/E2**, com ligação defeituosa ao receptor de LDL; frequentemente desmascarada por um segundo fator (obesidade, diabetes, hipotireoidismo). - Achados laboratoriais: acúmulo de remanescentes de quilomícrons e de VLDL (IDL), com TG e colesterol elevados; banda β larga na eletroforese. - Achados clínicos: **xantomas palmares** (sulco palmar), xantomas tuberoeruptivos e doença coronariana e vascular periférica precoce. - **Deficiência familiar de LPL (tipo I) ou de apoC-II:** acúmulo de quilomícrons (não de remanescentes), causando hipertrigliceridemia grave, pancreatite, xantomas eruptivos, hepatoesplenomegalia e lipemia retiniana. - **Abetalipoproteinemia (deficiência de MTP):** ausência de formação de quilomícrons, causando má absorção de gorduras, acantócitos e deficiência de vitamina E com manifestações neurológicas. - **Doença renal crônica, diabetes e síndrome metabólica:** podem comprometer a depuração dos remanescentes, elevando o colesterol remanescente, considerado fator de risco independente para doença aterosclerótica.

## Tratamento

Na disbetalipoproteinemia familiar, tratam-se as causas secundárias, recomenda-se modificação dietética e inicia-se **fibratos** e/ou **estatinas**. Os fibratos aumentam a atividade da LPL e reduzem os níveis de TG.

**Mnemônico:** remanescente de quilomícron = rico em colesterol, pobre em TG, pronto para captação hepática via apoE.

Fontes

  • Harrison's Principles of Internal Medicine, 21ª ed.
  • Robbins & Cotran, Patologia Básica, 10ª ed.
  • Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – SBC, 2017
  • Lehninger, Princípios de Bioquímica, 7ª ed.

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